//O insano caminho da desigualdade

O insano caminho da desigualdade

Na crise, quem perde são os mais pobres que por promessa de mais emprego, veem seus direitos serem usurpados, enquanto a concentração de renda aumenta.
Sem dúvidas estamos passando por um momento de transformação tão profunda na sociedade, que pode ser que daqui a cem anos, esse período seja reflexo de uma revolução, como a da máquina a vapor na Inglaterra ou à política na França, no século XIX.
Os aspectos dessa transformação que estamos vivendo são profundos não só no Brasil, como no mundo todo. Se por aqui passamos por uma crise política sem precedentes e com o desfecho de difícil previsibilidade, no exterior temos uma ascensão de partidos de direita, atentados praticamente toda semana e um aumento alarmante da intolerância.
A economia mundial ainda não deu sinais claros de que superou a crise de 2008 e dados atuais da nossa economia apontam para um dos maiores índices de desemprego já registrados no país. Um em cada três novos desempregados no mundo são brasileiros, o que sinaliza a gravidade da crise que estamos passando.
Analisando os 20 maiores países do mundo (G20), a Espanha seguida do Brasil lidera a lista de desempregados com 18,75% e 13,60% de desempregados respectivamente, segundo os dados da Trading Economics.
Curiosamente, quando olhamos para os mais ricos desses países, o cenário muda. Somente em 2016, segundo relatório sobre riqueza divulgado pelo banco Credit Suisse, mais 10 mil brasileiros se tornaram milionários, enquanto na Espanha, foram mais sete mil.
Foi justamente ao longo da crise financeira mundial que se desencadeou em 2008, mais precisamente em 2016, que 1% da população mundial mais rica, passou a deter mais de 50% da riqueza mundial. Quando se abre o espectro para os 10% mais ricos, a acumulação de riqueza chega a 88% da riqueza.
Considerando que o mundo tem 7 bilhões de habitantes, significa que da riqueza total, 70 milhões possuem metade da riqueza do mundo. Os 700 milhões mais ricos possuem 88% da riqueza e os outros 12% são divididos entre 6,3 bilhões. Isso significa que 6,3 bilhões de pessoas praticamente estão excluídas do sistema econômico mundial.
Analisando de uma outra forma, segundo dados do Banco Mundial, o PIB Global é de US$ 74 trilhões de dólares. Se dividido igualmente entre os 7 bilhões de habitantes, esse montante proporcionaria uma renda de cerca de US$ 880 por mês para cada habitante, o que em reais daria uma renda por pessoa de cerca de R$ 3.000 por mês. Uma família de 4 pessoas teria a renda de R$ 12.000 o que deve ser suficiente para uma vida digna.
A concentração de renda mundial alcançou níveis tão críticos quanto o do mundo industrializado antes da Primeira Guerra Mundial, na época da Belle Époque. Esses dados são alarmantes e nos mostram que estamos possivelmente em uma rota de conflito.
Sabendo desses dados, vale a pena agora refletir sobre as propostas de retirada de benefícios dos trabalhadores, a flexibilização das leis trabalhistas, para que os donos de empresas possam gerar mais empregos. Quem será o grande beneficiado com essa medida?

Felipe Nestrovsky é mestrando em administração, economista e consultor de sustentabilidade.