//Trabalho infantil : é preciso ir além do lugar comum

Trabalho infantil : é preciso ir além do lugar comum

Nem tudo o que sempre vimos, muito ouvimos e acabamos aprendendo a repetir é verdadeiro. Em muitos casos, somente um olhar mais técnico mostra verdades escondidas. Com o trabalho infantil é assim. Em geral, aprendemos que o trabalho é sempre bom, que não faz mal a ninguém e que ajuda no desenvolvimento. Pensamos assim, porque vemos, com muita rapidez, os supostos benefícios do trabalho infantil, enquanto que seus prejuízos, muito mais graves, tendem a aparecer menos ou somente a longo prazo.
Quando uma pessoa vê uma criança trabalhando, vendendo balas na rua, por exemplo, pensa que ela terá condições de comprar alguma coisa que esteja precisando, poderá ajudar a família, etc. Esta mesma pessoa não estará na escola com a criança, para ver que ela dorme durante a aula, pois está muito cansada, não conseguindo acompanhar os estudos e sendo prejudicada em sua educação. Quem vê uma criança ajudando a carregar compras na feira não estará com ela, quando ela for adulta…Nesta idade é que os prejuízos causados aos ossos e músculos, que não estavam totalmente formados enquanto a criança trabalhava, vão aparecer.
O senso comum, aquilo que aprendemos no dia a dia, tem seu valor em muitos casos, mas quando o assunto é trabalho infantil, é preciso ir além. É preciso ter acesso a dados técnicos, pesquisas, estatísticas. Provavelmente poucos de nós conhecemos casos de crianças que morreram enquanto trabalhavam, mas só em 2015 foram mais de 2.500 mortes, nestas condições.
Defender o trabalho infantil é defender um suposto desenvolvimento que, na verdade, é o causador de prejuízos terríveis. Se quisermos crianças e adolescentes protegidos de verdade, tornando-se cidadãos melhores em todos os sentidos, temos que mudar a cultura de aceitação do trabalho infantil. Para se desenvolver integralmente, a criança deve estar na escola, em projetos sociais e culturais. Somente assim, estaremos ajudando de verdade nossas crianças e adolescentes.

Propércio Rezende é Pós-graduado em Comunicação Social, atua na área dos direitos da criança e do adolescente desde 1996, no atendimento direto (conselho tutelar, direção de entidade de acolhimento etc.) e em âmbito institucional (gestão de projetos, políticas públicas, etc.). Trabalha em capacitação, consultoria e assessoria para instituições e operadores do Sistema de Garantia dos Direitos; elaboração de diagnósticos e construção de planos municipais dos direitos de crianças e adolescentes.